TU, O QUE VÊS? ANO JUBILAR: FORÇA CURATIVA E UNIFICADORA

“Levanta os olhos” assim o Senhor falou a Abraão “…conta as estrelas” (Gn 15,5). Levanta os olhos, CONFHIC conta as inumeráveis maravilhas que o Senhor fez e faz acontecer no seio dessa Família Congregacional, eis o que nos diz o Senhor conduzindo-nos para fora como fez com Abraão.

Por que o Senhor está nos conduzindo para fora? Hoje, 15 de junho, celebramos o Corpo de Cristo, sua vida feita doação. Corpo aberto, quebrado e repartido, constantemente doado. Reconhecidas e agradecidas celebramos a memória de uma mulher que também se fez doação, quebrou-se, se repartiu e ofereceu sua vida para que outros pudessem viver, fez-se pão e saciou muitas fomes: Madre Clara!

O que ela nos pede? Abram as janelas, ergam os olhos além do já conhecido, do chão de cada dia, contemplem a imensidão, contem as estrelas. Minhas irmãs são Cidadãs do mundo e irmãs dos pobres. Não tenham medo!

Reconhecemos que fomos chamadas, contempladas, amadas e enviadas. Deus continua nos chamando (cf Gn 12,1) para sermos protagonistas de uma nova história. Abraão saiu do seu contexto, Madre Clara também e nós? Ele alegou a idade, para a Madre Clara qualquer idade não é obstáculo para a promessa…é assim conosco também? Na vida da Fundadora, quando Deus tomou a iniciativa, ela rompeu com todos os cenários e se abriu à alteridade.

Estamos dando início ao Ano Jubilar dos 175 anos de seu nascimento e não queremos inverter o olhar e fazer acontecer no jardim de nossas vidas o que aconteceu naquele primeiro jardim quando Deus o visita pela brisa da tarde, percebe o escondimento humano e pergunta: “Onde estás? ” (Gn 3,9). Onde estamos nós hoje? O que vemos?

Logo cedo, o Senhor entra levemente em nosso coração e diz: Venham ver o sol que está nascendo… e nós corremos pressurosas para ver a grandiosidade da luz. Entramos na Capela e lá estava ela à nossa espera. Fizemos memória de sua vida e sua doação. Na sua sensibilidade, ela deixa tudo e vai ao encontro dos pobres exercendo a Hospitalidade em gestos concretos tocando a carne de Cristo.

Inauguramos seu MEMORIAL com a celebração Eucarística momento alto do dia, como lugar singelo e simples como ela mesma. Quanta luminosidade! Ali está nossa Mãe, a  Hospitaleira exemplar. Silenciosas entramos conduzidas pela luz divina do Espírito Santo, pupila de Deus, oculta em cada uma de nós. Momento inesquecível!

Celebrada pela primeira vez nesse recinto sagrado, a Eucaristia foi um momento singular onde o Tu divino apareceu como o grande centro de gravidade, como o totalmente importante. O Sacerdote Frei José Moacyr Cadenassi, enfatizou com vigor ao afirmar que a verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos irmãos e irmãs. Palavras que nos tocaram e silenciaram nossos corações ao nos confirmar que Madre Clara em lugar de ser uma fugitiva do divino, deixou-se apanhar, alcançar por Deus superando as inevitáveis resistências e opacidades.

Dessa forma e nessa esteira de pensamento assistimos um Power Point sobre um olhar para a VRC e para a ROBRASUL enfocando especialmente o estilo de vida como atração para os/as outros/as e vida entregue e dada “pelos outros”. Reconhecemos que tantas reformas e mudanças não conseguiram levar-nos à reconstituição da identidade especifica da Vida Religiosa Apostólica (VRA) como tal, de maneira visível e significativa. Experimentamos momentos de muita clareza ao reconhecer que “nem tudo que foi assumido, foi digerido, e menos ainda, processado evangelicamente”. Mãe Clara quer saber se estamos dispostas a “começar de novo” com o mesmo entusiasmo e paixão, decididas a fazer a conversão ao núcleo essencial de nossa identidade.

Ela pode muito bem nos perguntar: Tu, o que vês? Uma CONFHIC em ritmo de revitalização e reorganização? Uma CONFHIC que enxerga no céu uma pequenina nuvem? Uma CONFHIC cujas consagradas são as “reservistas do futuro”? Uma CONFHIC como dama despojada, sorriso estampado no rosto trazendo o nome da misericórdia, oferecendo-se a si mesma para cumprir os ritos de hospitalidade a começar pelo lava-pés? Uma CONFHIC cuja porta não está aberta para receber, mas para sair, cuidadora da natureza e defensora dos pobres? Uma CONFHIC cujo selo é a fidelidade dinâmica à própria missão? Uma CONFHIC que mostra ao mundo seu caráter profético, próxima dos sonhos de Deus, humilde, pobre, servidora, dialogal e testemunha do Reino?

Como filhas de uma Mulher elevada por Deus à sua máxima plenitude dedicamos-lhe muita simpatia, mas jamais poderemos compreendê-la fora do horizonte e do âmbito de sua experiência religiosa e da fé cristã. O imperativo bergoliano nos diz: “Não perder nunca o ímpeto de caminhar pelos caminhos do mundo/…/também com passo incerto ou mancando, é sempre melhor do que estar parado, fechado/…/ nas suas perguntas ou nas suas seguranças” (PER 1 8e).

Mãe Clara nos empurra para a solidariedade das periferias na liberdade das portas abertas. Como uma gaivota, bateu forte suas asas e deu abrigo às mulheres degredadas na África, e fez das ruas de Lisboa um campo de acolhimento aos famintos. Grita mais alto com coragem heroica e envia suas Irmãs como anjos de paz e as coloca em postos de vanguarda da missão. Voando bem mais longe suas filhas cruzaram o oceano até o Novo Continente embrenhando-se na floresta amazônica. Dessa forma, ainda hoje, ela continua voando alto de olho na realidade a nos chamar a ensaiar uma coreografia de voo livre. Seu Jubileu nos leva a isso. “Não há maior liberdade do que a de se deixar conduzir pelo Espírito” (EG 280). Demo-nos as mãos e dancemos a Ciranda da misericórdia com fidelidade e coragem. Tantas vezes ficamos embaixo da terra, mas renascemos e vamos continuar a renascer “como a cigarra cantando ao sol”.

Graças, Senhor pelo êxodo em direção aos pobres, pela volta às fontes, pela inserção missionária, participativa e solidária na vida do povo de Deus e pelo PRR que faz emergir uma VRCFH mais evangélica, pobre, solidária e mais espiritual. DEO GRATIAS!

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