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Missão é: uma arte da qual é preciso aprender a desaprender, para aprender o que realmente precisa ser aprendido

“Missão é: uma arte da qual é preciso aprender a desaprender, para aprender o que realmente precisa ser aprendido. ’’

Com este pensamento acima acredito que chegou à hora de dizer até um dia, à minha querida Amazônia. Sim é isso mesmo até breve assim como após cem anos nossa Congregação retornou a esse chão, nutro a esperança que assim também pode acontecer comigo se for da vontade de Deus. Ele continua chamando e apontando para a Amazônia!

Deus em sua infinita bondade não faz nada por acaso, e à sua maneira foi me preparando para poder experimentar o que experimentei aqui nessa missão na Amazônia através das missões realizadas durante os tempos iniciais de minha formação. Elas foram de grande aprendizado para confirmar em mim um concreto apreço pela dinâmica de se viver no movimento missionário. Missão é movimento!

Recordo-me com carinho daquela manhã do dia 16 de janeiro de 2014, quando Ir. Natair, Mestra de Juniorato, comunicou-me a nova missão: eu iria servir na Comunidade Maria Mãe Missionária, Tabatinga, Juruti/Pará. Num primeiro momento uma grande alegria invadiu o meu coração e também a inquietação e o medo frente a uma missão tão especial. Estava em jogo e como grande desafio ser uma hospitaleira missionária numa realidade bem diferente até então experimentada por mim. Recordei também os meus pedidos quando Ir. Vilani viajava para lá eu sempre dizia: leva-me na mala e ela sorrindo dizia: quem sabe um dia você irá, e esse dia chegou em 09 de abril de 2014 quando juntamente com ela saímos de São Paulo com destino a Tabatinga – Juruti -Pará. A Amazônia me esperava!

As primeiras semanas não foram fáceis, pois a realidade muito diferente de tudo o que até então eu já tinha tido a oportunidade de vivenciar, o calor era quase insuportável, as estradas, o deslocamento de barcos e bajaras nas visitas a várias comunidades, a imensidão das águas, a beleza do Rio Amazonas e Tapajós, as situações econômicas, religiosas, culturais e até mesmo de linguagem, foram desafios que aos poucos superei graças às minhas Irmãs que já se encontravam nessa exigente e gratificante missão juntamente com o Pe. José Paulo e algumas lideranças locais.

Ao longo do caminho fui tomando consciência da importância de aprender a desaprender para aprender o que precisava ser aprendido, para melhor vivenciar a missão que se abria à minha frente. Inteirar-me dos trabalhos pastorais, sua caminhada e desafios, estar em contato com as lideranças dando formação e sendo também formada, caminhando junto com eles ao ritmo dos seus passos. Aqui também foi um grande exercício, pois eu precisei aprender a diminuir os meus passos que confesso foi uma luta constante e diária que me obrigava todos os dias a uma dura disciplina interior que ainda exerço para melhor viver no cotidiano e assim ser uma hospitaleira com os pés no chão nessa realidade caminhando ao ritmo do povo que me acolheu com um grande carinho e cuidado. Isso foi edificante!

Outro fator marcante foi à ausência da Vida Religiosa jovem que me levou a uma aproximação maior ao criar laços de minoridade e irmandade com as Irmãs de outras Congregações experimentando, partilhando e estreitando assim uma belíssima caminhada Inter congregacional onde juntas fomos nos dando as mãos e nos motivando a trilhar esse rico chão garimpando com cuidado os mais diversos tesouros caídos à beira do caminho uma vez que essas Irmãs haviam chegado no mesmo ano que eu. Assim os encontros de formação na Diocese ganhavam novo perfume, pois sempre que podíamos nos reuníamos como VRC para partilhar a nossa caminhada junto a esse povo que tanto tem a nos ensinar. Durante esses encontros as partilhas e experiências eram únicas e as mais diversas. Uma riqueza extraordinária!

Também me marcou muito a simplicidade e praticamente a ausência de o mínimo de conforto de muitas famílias (agua encanada, energia, um banheiro, alimentação básica, um armário para guardar as roupas, um simples brinquedo para as crianças, algumas gestantes deixavam de tomar as vitaminas próprias da gravidez pois as vitaminas davam fome e elas não tinham o que comer). Quando eu ia para as comunidades sempre me surpreendia, pois eu sabia: se eu não comesse arroz ou feijão, ou qualquer outro alimento naquele momento, tinha certeza que em casa eu o tinha e de forma suficiente. Por outro lado eles não o teriam tão cedo e mesmo diante destas situações, grande era a alegria em partilhar comigo a sua farinha e o seu peixe que muitas vezes me presentearam: farinha, peixe, coco, uma galinha, beiju, açaí e tantos outros alimentos nativos da nossa Amazônia. Uma partilha que se multiplicava!

A vida no cotidiano foi lapidando em mim as muitas oportunidades de viver e experimentar a hospitalidade junto aos irmãos e irmãs: visitando os doentes, amparando as famílias que perderam seus entes queridos, acolhendo os imprevistos da missão e evangelização e tantas outras situações. Colocar-se a serviço da escuta num aprendizado um pouco esquecido frente a um mundo mergulhado no barulho, orientar as mães nos cuidados básicos com seus filhos. Marcou-me muito o contato com crianças que foram dadas por suas mães e outras tantas que foram abusadas por seus parentes próximos. Buscar junto com as Irmãs e as lideranças animar os comunitários na ausência de um sacerdote fixo em nossa Paróquia, foi uma experiência muito desafiadora onde mesmo diante da falta de sacerdotes, as comunidades buscavam se dar as mãos e juntos/as ajudar a Igreja em sua missão evangelizadora. Ser Igreja é participar!

A missão é árdua cheia de desafios e novas situações. Eu simplesmente podia ser uma presença singela na minoridade hospitaleira e nesses muitos e árduos desafios do caminho, No entanto, foi na comunidade e na intimidade com o Senhor da messe junto com as minhas Irmãs que eu partilhava as minhas angustias, inquietações, alegrias, conquistas e esperanças para continuar inteira não perdendo as oportunidades de fazer o bem, dando-me também por inteira a esse povo eleito e escolhido do qual eu fui e serei uma eterna aprendiz, sempre buscando acolher o querer de Deus nos mais variados acontecimentos. Afinal de contas tudo é graça e, mesmo diante de tantas solicitações na nossa vida em comunidade, tínhamos sempre o cuidado, de celebrar os momentos marcantes das nossas Províncias e Congregação, nossa oração da manhã na capelina no meio da floresta, os nossos retiros mensais, a celebração dos nossos aniversários com simplicidade e espiritualidade. Os momentos de lazer eram quase sempre junto ao irmão Igarapé onde podíamos na água corrente fria e limpa, sob a imensa copa das   árvores nos lavar do cansaço e beber novas esperanças, para melhor realizarmos a missão a nós confiada. Quanta aprendizagem!

Enfim, esse tempo assim vivido me ensinou a fazer e viver experiências únicas das manifestações de Deus na minha vida e na vida e cotidiano dos irmãos. Essa partilha é singela e simples e mesmo que eu redigisse um livro sobre esse tempo as palavras, infelizmente, seriam insuficientes para expressar os sentimentos e emoções vividas com muita profundidade e mística. Deus seja louvado!

Minha eterna gratidão à Congregação na pessoa de Ir. Maria Vilani   e seu Conselho que me presentearam com essa rara oportunidade de fazer parte dessa gratificante e desafiadora missão, no resgate da memória de nossa chegada aqui no Brasil. Minha frase final é dizer que foi, fez e fará parte do marco na caminhada do “Vinde e vede” e ainda o que nos deixou o grande profeta Dom Helder.

POEMA DA MISSÃO – Dom Helder Câmara

 

Missão é partir, caminhar, deixar tudo,  sair de si, quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha no nosso Eu.

É parar de dar volta ao redor de nós mesmos como se fôssemos o centro do mundo e da vida.

É não se deixar bloquear nos problemas do pequeno mundo a que pertencemos:  a humanidade é maior.

Missão é sempre partir, mas não devorar quilômetros É, sobretudo, abrir-se aos outros como irmãos,  descobri-los e encontrá-los.

E, se para encontrá-los e amá-los é preciso atravessar os mares e voar lá nos céus,  então Missão é partir até os confins do mundo.

 

Na alegria de sermos peregrinas e forasteiras permaneçamos sempre prontas e disponíveis para partir.

Meu abraço e minhas orações hoje e sempre.

Ir. Andréia Rodrigues da Silva, fhic – Vila de Tabatinga – Pará – agosto de 2017.

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